terça-feira, 28 de outubro de 2014

O mosaico de uma língua-cultura de herança


Quando penso no ensino do português como língua de herança minhas ideias se povoam de pessoas: nos pais, que se engajam no projeto de criarem filhos bilíngues, por vezes com a incompreensão e a falta de apoio da família, e nas crianças que colhem aqui e acolá peças isoladas de uma língua-cultura para darem sentido ao mosaico de sua identidade de herança. Esse esforço não ocorre simplesmente porque será bom, no futuro, ser bilíngue, esse esforço se dá porque essa língua representa uma ligação afetiva e cultural que se expressa no espaço da família e de uma pequena comunidade, quando há.
Nesse contexto, conheci professores que se dedicam a ajudar essas famílias a construírem esse mosaico de uma língua-cultura-identidade de herança. Alguns desses professores trabalham isoladamente e outros participam de escolas comunitárias pelo mundo. Dedico-me a refletir sobre as escolhas curriculares desses professores de língua de herança (LH).
Entre outros aspectos, proponho a esses professores uma reflexão inicial: quais as expectativas de aprendizado que essas famílias mantém em relação às habilidades de fala, escuta, leitura e escrita para seus filhos? Essas expectativas estão relacionadas a quais contextos de usos sociais?
Por exemplo, se a preocupação das famílias é unicamente manter os laços com os parentes distantes, as habilidades de ler e escrever podem ser direcionadas a contextos informais como bilhetes, cartas e e-mails que utilizam um registro mais próximo da oralidade. No entanto, se houver o desejo de preparar os aprendizes para atuarem como bilíngues profissionalmente no futuro, haverá a necessidade de explorar diferentes registros linguísticos e habilidades, como por exemplo falar em público utilizando um registro formal e escrever textos de acordo com a gramática normativa. Cabe aos professores, às escolas comunitárias e às famílias discutirem e acordarem sobre o caminho para que os aprendizes colham suas peças e construam seu mosaico ao longo de sua vida.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Recomendo a leitura!!! lagarta pintada | pais e educação | desenvolvimento infantil: Famílias em trânsito

lagarta pintada | pais e educação | desenvolvimento infantil: Famílias em trânsito: Por Felicia Jennings-Winterle Em tempos pós-modernos como os nossos, o mosaico formado pelos diferentes tipos de famílias é coloridí...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Multiculturalismo como princípio curricular


Sonia Nieto (Nieto, 2002) observou que, nos Estados Unidos, os estudantes bilíngues oriundos de minorias geralmente vivem um conflito ideológico, pois há uma mentalidade predominante de exclusão na construção de identidades.
Essas crianças e jovens são implicitamente impelidos a escolher pertencer a uma minoria, ou ser americano: ou um ou outro”. A ideologia dessa mentalidade é a assimilação, pois para pertencer à identidade americana, as crianças e jovens abandonam a cultura, a identidade e a língua de suas famílias. Muitas vezes, esse processo é gradativo e se inicia com a entrada da criança na escola.
            Por que crianças e jovens bilíngues oriundos de minorias não podem pertencer a múltiplas culturas? Por que eles não podem assumir uma identidade híbrida? Essas questões são levantadas por professores e estudiosos que entendem identidade e cultura como pertencimentos múltiplos e mutáveis. É fundamental que professores, coordenadores, comunidade e sociedade compreendam que as crianças e jovens de famílias minoritárias participam simultaneamente de duas ou mais culturas.
De forma a combater a ideologia de assimilação, Nieto defende que uma educação multicultural seja um princípio curricular para todos os estudantes e não apenas para aqueles oriundos de minorias. Esse princípio rejeita todas as formas de discriminação nas escolas e na sociedade e está baseado na afirmaçpio curricularuralismofases, desde o estabelecimento de princão da pluralidade pelos professores, pelos estudantes, pelas comunidades e pela sociedade. Para representar uma sociedade diversa, o  conceito de multiculturalismo deve permear a elaboração do currículo em todas as duas fases, desde o estabelecimento de princípios norteadores até a seleção de conteúdos e métodos.
As escolas comunitárias e os professores de língua de herança também devem sustentar seus currículos numa educação multicultural. Consequentemente, é preciso que o professor, o coordenador e o administrador combatam o discurso da assimilação não impondo os limites de suas próprias identidades, mas afirmando um pertencimento plural.
Referência:
Nieto, S. (2002). Language, culture, and teaching: Critical perspectives for a new century. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Association.

domingo, 5 de maio de 2013

Vamos combater os mitos sobre o bilinguismo infantil?


O bilinguismo é um fenômeno complexo e muitas vezes não nos damos conta de que é muito comum e está presente na maioria dos países do mundo, percorrendo todas as idades e todos os grupos sociais. Atualmente, estima-se que metade da população mundial seja bilíngue.
É comum que famílias brasileiras que emigraram convivam com dúvidas sobre como criar seus filhos bilíngues. Primeiramente, é preciso entender que a manutenção da língua portuguesa no ambiente familiar é uma escolha e responsabilidade dos pais: a família deve conversar sobre o assunto e tomar uma decisão. Também é importante conhecer os mitos sobre o bilinguismo infantil e os argumentos para combatê-los. Dessa forma é possível proteger a família de conselhos que ignoram os dados das pesquisas científicas das últimas décadas. Vejamos alguns mitos e como combatê-los:
  • ·      Ser bilíngue é ter igual fluência em duas ou mais línguas.

É raro encontrar uma pessoa que tenha igual fluência em duas ou mais línguas que conheça e utilize. O conhecimento de uma língua está ligado à história de vida das pessoas. Outro aspecto a ser considerado é que, geralmente, desenvolvemos habilidades em domínios linguísticos diferentes em cada língua que conhecemos, um exemplo é o bilinguismo do típico falante de herança. Geralmente essa pessoa tem conhecimento do vocabulário de uso cotidiano nas circunstâncias familiares, mas encontra dificuldade para utilizar a língua numa circunstância formal ou para discutir um assunto específico.
·      Pessoas bilíngues falam sem sotaque.
É muito mais comum encontrar pessoas bilíngues que têm sotaque. Importante entender que ter ou não um sotaque não determina a habilidade linguística de uma pessoa.
  • ·      Verdadeiros bilíngues adquiriram duas ou mais línguas na infância.

As crianças podem ser educadas para serem bilíngues, no entanto, se elas não utilizam as línguas a que foram expostas podem passar pelo processo de esquecimento e de perda linguística.  Outra questão é que não é preciso aprender uma língua desde criança para adquirir conhecimentos suficientes para utilizá-la cotidianamente. Os adultos e adolescentes também adquirem competência para se comunicarem em uma segunda língua. O aprendizado de uma língua depende de vários fatores como tempo de exposição cotidiana, tipo de exposição, motivação e necessidade de uso.
  • ·      Uma criança deve ser exposta, no máximo, a duas línguas.

Não há limite do número de línguas a que uma criança pode ser exposta. O importante é avaliar a quantidade e a qualidade da exposição para a manutenção e o desenvolvimento das línguas escolhidas.
·      Expor crianças a uma língua de herança terá um efeito negativo na aquisição da língua utilizada na escola. Ou, expor a criança a duas ou mais línguas desde o nascimento causará algum atraso em seu desenvolvimento.
Embora alguns pais relatem a impressão de que seus filhos, inicialmente, vivem algum tipo de atraso no desenvolvimento da linguagem, as pesquisas científicas dizem que não há relação de atraso no desenvolvimento linguístico devido ao fato de uma criança ser bilíngue. Pelo contrário, as indicações atuais são de que as crianças bilíngues, com o passar do tempo, têm maior facilidade ao manejar habilidades metalinguísticas.
  • ·      Crianças criadas na mesma família desenvolverão um mesmo nível de proficiência como falantes de herança.

Não se deve esperar que os filhos tenham as mesmas habilidades linguísticas. Cada um desenvolverá um percurso próprio de aprendizado.
Lembremos que a manutenção e o desenvolvimento da língua de herança estão relacionados ao valor que a família e a comunidade dão para essa língua. Os fatores determinantes são a necessidade de uso e o tempo e a qualidade de exposição a que o falante tem acesso. É a necessidade de interação com as pessoas no cotidiano (falar, brincar, cantar, ouvir, ler, contar, etc.) que determinará a manutenção de uma língua.

Texto publicado no Gazeta Brazilian News e no SALA


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Português como Língua de Herança: questões iniciais


Uma língua de herança é aquela utilizada com restrições (limitada a um grupo social ou ao ambiente familiar) e que convive com outra(s) língua(s) que circula(m) em outros setores, instituições e mídias da sociedade em que se vive. Acredito que o bilinguismo infantil na situação de manutenção da língua falada em ambiente familiar, a língua de herança, é uma escolha e responsabilidade dos pais. A família precisa esforçar-se para a manutenção dessa língua minoritária, buscando informação sobre o que é bilinguismo e pedindo ajuda à comunidade em que vive (governo, professores, escola, parentes próximos e distantes, amigos, etc.) de modo a romper com mitos e a cultivar a língua de herança na criança.
Tenho pesquisado o Português como Língua de Herança (PLH) e a construção de um currículo que contemple as especificidades desse aprendiz de modo que ele desenvolva as habilidades de fala, escuta, leitura e escrita na língua familiar e ainda desenvolva o pertencimento na cultura em língua portuguesa. O currículo compõe-se a partir de como professor e aluno entendem as dinâmicas sociais, políticas, culturais, intelectuais e pedagógicas a que estão sujeitos. Entendo currículo como um composto complexo de valores e de proposições que norteiam a interação entre professor e aluno, como também a interpretação sobre o que acontece durante este encontro expresso pela língua-cultura.
O conceito central que norteia o currículo de PLH que desenvolvo é o de língua-cultura, no entender de que a língua é um dos modos pelos quais nos constituímos humanos, com o qual produzimos sentido ao que somos e ao que queremos expressar. E cultura, tudo o que o ser humano toma para si e transforma. Também se faz necessário o esclarecimento de que entendo texto como toda forma de expressão, desde uma notícia de jornal, uma escultura, inclusive um gesto, um modo de vestir, etc.
Ao discutir um currículo de PLH coloco-me algumas questões: Há um objetivo limitado para o desenvolvimento das habilidades de fala, escuta, leitura e escrita em PLH? Que tipos de leitores e escritores queremos formar por meio de nossa ação pedagógica em PLH? Como proceder na seleção de textos dessa língua-cultura: quais são os textos fundamentais no aprendizado da PLH?
O intuito de selecionar e organizar toda a herança dessa língua-cultura passa pela busca do entendimento do que é típico de nossa linguagem, de nosso humor, de nosso comportamento, de nosso modo de vestir, de nossa literatura, etc. No entanto, aquilo que é típico pode expressar um estereótipo e não representar a complexidade de ser e de se expressar na língua-cultura. Portanto, há que se apresentar a língua-cultura de forma dialógica, em que a busca pela representação da complexidade seja um método de seleção de textos. Neste contexto, a língua não pode ser pensada dissociada da cultura, e seu ensino não pode estar limitado à dimensão estrutural de sua gramática.
Para isso, tenho selecionado textos variados, orais e escritos, a partir de bens culturais como literatura, música, artes visuais, dança, folclore, entre outros, visando à variedade de registros. Neste currículo, os textos não são pretextos para o aprendizado da estrutura da língua, mas os meios de interação e de relação com a língua-cultura para que os aprendizes tenham acesso a uma complexa gama de expressões. A partir delas, as interações entre professor e aluno visam a que os alunos tornem-se sujeitos que falem, ouçam, leiam e escrevam suas próprias expressões na língua-cultura.
Essas concepções têm-me auxiliado na composição e na reflexão de um currículo inicial de PLH, cujo intuito é a criação de uma relação de pertencimento desta língua-cultura e a manutenção e o desenvolvimento das habilidades linguísticas dos aprendizes.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Nossa vida como ela é?


Este ano, diversos eventos no Brasil comemoram o centenário de nascimento do escritor Nelson Rodrigues. Nascido em 23 de agosto de 1912, em Recife, onde viveu apenas até os 4 anos de idade, sua família migrou para o Rio de Janeiro.
Nelson trabalhou em vários jornais. Além de se tornar um importante cronista, destacando-se também como cronista esportivo, ele escreveu folhetins, contos, romance e teatro. Foi neste gênero que construiu uma obra que ele mesmo classificou como um “teatro desagradável”, por representar personagens em situações limite, mas que o consagraram como o maior dramaturgo brasileiro.
Morreu aos 68 anos, em 21 de dezembro de 1980, de trombose e insuficiência cardíaca, sem presenciar seu prestígio. Aliás, ouviu a vaia do público algumas vezes, e na ocasião de encenação de sua peça Senhora dos Afogados, em 1954, disse: Queria desagradar muito mais. A vaia parcial a Senhora dos Afogados parece-me insuficiente. Só me sentirei bem quando merecer uma vaia total.
O teatro rodrigueano apresenta um universo em que a pureza não tem lugar. Nele, as personagens expõem seus demônios internos e imprimem uma visão pessimista do autor sobre as possibilidades de realização afetiva do ser humano. Assim, só podemos encontrar desfechos infelizes nas histórias dos tantos casais e amantes de suas 17 peças. Vale destacar que entre elas apenas uma tem final feliz, peça que chamou de Anti-Nelson Rodrigues. A ironia do título é autoexplicativa: só mesmo na obra em que o autor se propõe à contradição, poderíamos encontrar uma cena final em que as personagens se beijam! No entanto, a falsidade desse desenlace é evidenciada pela nota do autor para que os atores beijem-se como nos filmes antigos, porque se fosse uma cena real...Ao saborearmos suas peças, as ironias e sarcasmos não devem passar desapercebidos.
Nelson apropriou-se de técnicas do melodrama, compondo uma ação veloz, pontuada por revelações surpreendentes e reviravoltas súbitas. Suas histórias lidam sempre com situações extremas e ações extraordinárias. As personagens são, necessariamente, criaturas movidas por forças obscuras e densas. Isso tudo se traduz – no palco ou nas páginas de contos, romances, e crônicas – em uma expressão sobrecarregada. As rubricas e descrições do autor referem-se detalhadamente às atitudes, aos gestos, aos comportamentos corporais e às ressonâncias vocais. Consequentemente, são representados seres destemperados, comumente em discussão, estendendo as mãos em súplica, prostrando-se aos pés uns dos outros, atirando-se ao chão, emitindo gritos, clamando soluções.  Esses extremos fizeram com que o amigo Manuel Bandeira o questionasse:

“Nelson, por que você não escreve sobre pessoas normais?”, perguntou Bandeira. E Nelson, levantando as mãos ao céu: “Mas, meu querido Bandeira, eu escrevo sobre pessoas como você e eu!” (Ruy Castro. “Prefácio a Nelson Rodrigues” in O melhor do romance, contos e crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.)
            Só nos resta ler e questionar: O que há de nossas vidas em suas obras?

Confira este artigo publicado na coluna Nosso Idioma, do Gazeta Brazilian News...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Aula desta semana: Volpi e festa junina


Nesta aula, as expectativas de aprendizagem eram:
O reconhecimento fônico e gráfico do alfabeto em língua portuguesa (escrita do nome e reconhecimento de vogais);
Trabalho com dicção de sons em língua portuguesa;
Aumento do vocabulário em língua portuguesa;
Trabalhar os conhecimentos de música, folclore, artes visuais e literatura por meio do tema Festa Junina;
Criar uma relação de identidade com o ser brasileiro (língua-cultura);

A aula hoje se concentrou na aquisição do vocabulário sobre elementos comuns nas festas juninas, a confecção do cartaz para trabalhar vocabulário foi eficaz. A música criou um envolvimento e serviu como suporte de memorização. Aproveitei para apresentar o ritmo forró e para introduzir a cultura do Brasil rural. Também projetei obras de Alfredo Volpi e eles compararam as bandeirinhas e o uso de cores e formas.
Grande abraço
Ivian

terça-feira, 29 de maio de 2012

De grão em grão...

Olá a todos!
Nas conversas sobre bilinguismo e língua de herança que tenho organizado com as famílias, uma questão comum é: Quais livros em português oferecer para as crianças lerem? 
Vale lembrar que a leitura (mesmo que alguém leia para a criança) e o reconto da estória (feito pela criança) são atividades muito eficazes para a manutenção da língua de herança, pois envolvem uma participação ativa na interação linguística.
Em meu trabalho com língua de herança, proponho que o ensino-aprendizagem faça conhecer, interpretar, usufruir e produzir diversos objetos culturais brasileiros. Para isso, utilizo bens culturais como literatura, música, artes visuais, dança, folclore, entre outros. 
Para as crianças que já iniciaram a ler indico uma seleção de livros de literatura infantil brasileira feita por professores. Cliquem e imprimam!
Cada vez que vou ao Brasil, ou quando alguém da família vem nos visitar, mais um livro é adicionado à nossa biblioteca...
Uma língua se sustenta e se desenvolve cotidianamente. De grão em grão...

Lista de livros de literatura infantil em português