segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Como manter e desenvolver o português como língua de herançaÇ sugestões para quem mora fora do Brasil

Olá!
Aqui, neste link Livro Português Língua de Herança , você pode acessar o livro que traz informações para que famílias e líderes comunitários brasileiros que moram fora do Brasil possam iniciar uma discussão sobre o Português como Língua de Herança. Bem, esse projeto eu não sonhei sozinha. Eu convidei Ana Lúcia Lico, diretora de uma escola comunitária de PLH na região de Washington DC e Gláucia Silva, diretora do Dept. de Português da Universidade de Massashusets Darmonth para embarcarem nessa empreitada e dedicamos nosso tempo a escrever esse livro juntas.
Devido aos esforços do Consulado Brasileiro de Miami, aliados à generosidade dos Senhores Francisco Ruiz e Antonio Carbonari Netto, as famílias brasileiras podem acessar esse livro gratuitamente.
Até a próxima!
Ivian Destro Boruchowski

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Alfabetização e letramento no contexto das línguas de herança


       O trabalho com Línguas de Herança (LH) visa à ampliação da capacidade de expressão dos aprendizes que, geralmente, está delimitada ao registro informal oral da língua e circunscrita ao vocabulário do ambiente familiar. Por isso, além de ter por objetivo o desenvolvimento da modalidade falada da língua para registros formais e a ampliação do vocabulário para diferentes domínios linguísticos, é comum que as iniciativas de línguas de herança busquem o desenvolvimento das habilidades de leitura e de escrita desses alunos.
Por que expandir a manipulação da língua da modalidade oral para a escrita? Primeiro, para que o aluno participe mais amplamente de uma herança linguístico-cultural; em segundo, para um desenvolvimento mais amplo da capacidade de compreender e produzir textos nesta língua; em terceiro, para o desenvolvimento de um pensamento mais lógico-abstrato na língua-cultura.
Como então podemos entender os conceitos de alfabetização e letramento e como podemos situá-los no contexto do ensino de línguas de herança? Na língua portuguesa é comum distinguir duas etapas do processo de aprendizado da leitura e escrita, a alfabetização, que pode ser entendida como o processo de instrução formal de decodificação das letras, das sílabas, das palavras na página, e o letramento, que é o aprendizado da manipulação (na leitura e na escrita) dos textos em seus contextos sociais.
Na educação, dissociar alfabetização e letramento mostra-se um equívoco porque o aprendizado da leitura e da escrita deve ser baseado nesses dois processos, o de decodificação e codificação, como também o de leitura e escrita contextualizadas como atividades sociais.
O que isso quer dizer? Quando apenas focamos em atividades de decodificação ou codificação dos fonemas e letras, não estamos ensinando o aprendiz a se comunicar de fato com alguém por algum propósito, por outro lado, é preciso ensinar o processo de correspondência entre fonema e letra para que se possa ler e participar das atividades sociais de leitura e escrita. Daí ser impossível dissociar a alfabetização do letramento, esses processos são interdependentes.
Quais as implicações da alfabetização e do letramento nas LH? Primeiro, ampliar o acesso a uma herança linguístico-cultural que consequentemente será uma outra maneira de criar elos de pertencimento para o aprendiz. Segundo, fazer desses alunos sujeitos que produzam textos e que participem de um repertório linguístico-cultural escrito o que os tornará muito mais preparados e efetivos em diferentes situações comunicativas.
O objetivo de nossas aulas é que os alunos tornem-se sujeitos que produzam textos orais e escritos como também saibam ler e compreender essas duas modalidades de textos para que haja efetivamente uma situação de comunicação. Retomo minhas ideias do artigo anterior, que tratou de uma reflexão sobre o conceito de língua no contexto do ensino de línguas de herança: os aprendizes precisam entender que a língua existe na função de comunicar, expressar algo para alguém, de realizar e organizar nossos desejos, pensamentos e ações para o outro e para nós mesmos.
Texto publicado na plataforma Brasileirinhos wordpress

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Falante de herança vai falar português com sotaque?


Entre vários aspectos que me intrigam sobre os estudos da linguagem, a sociolinguística é um dos que mais me fascinam porque observa como as pessoas usam e se relacionam com a língua. Como mãe, professora e pesquisadora de línguas de herança, tenho refletido muito sobre a questão do sotaque nos falantes de herança e os discursos que familiares e professores criam sobre esse aspecto da linguagem.
Às vezes escuto familiares e amigos se espantarem quando falantes de herança, bilíngues simultâneos, apresentam sotaque. Isto é, interferências sonoras de fonemas de uma língua em outra língua. É muito possível que um falante de herança que tenha ampla exposição e desenvolvimento da língua da família não desenvolva sotaque. Mas se ele tiver, qual será o problema?
O desenvolvimento de uma língua de herança deve ser visto como uma experiência de aprendizado de línguas em contato, diferentemente do aprendizado de uma língua nativa isolada, que pode ser seguida do aprendizado de uma segunda língua.
Muitas pesquisas sobre o inglês como segunda língua comprovam que pessoas conseguem se comunicar com muita eficiência mesmo tendo uma influência muito marcada da sonoridade dos fonemas de sua primeira língua. A eficiência da comunicação não está ligada ao sotaque, mas à estrutura gramatical, à objetividade, ao domínio do vocabulário, à fluência, entre outros aspectos.
Na realidade, o sotaque não é um problema de comunicação em si, ele é percebido como um problema por certas pessoas que tomam certas atitudes preconceituosas e discriminatórias em relação a um falante que apresenta sotaque. O desejo de falar sem sotaque, como um nativo, busca criar a impressão de se ter um domínio muito grande da língua, o que, na idealização das pessoas abriria uma porta social para a aceitaç  . Mas se bem, essas crianças sãarmos bem, essas crianças  para corrigir ess.lele teria habilidades linguão.
Eu entendo que uma das coisas que define um falante de herança é a construção de identidades, línguas, experiências sociais que se misturam. E para mim, não há problema nenhum em escutar interferências fonéticas de uma língua em outra.
Aos pais e professores preocupados com o sotaque: é importante questionar preconceitos e idealizações antes de projetá-los em nossos filhos e alunos. Não discriminem, nem atentem para as interferências fonéticas, mas para como essas crianças e adolescentes vivem as experiências e os discursos que moldam suas identidades. Um aprendiz de língua de herança necessita criar histórias de pertencimento, como também da maior exposição possível à língua. Só isso...

Este texto foi publicado no SALA.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O mosaico de uma língua-cultura de herança


Quando penso no ensino do português como língua de herança minhas ideias se povoam de pessoas: nos pais, que se engajam no projeto de criarem filhos bilíngues, por vezes com a incompreensão e a falta de apoio da família, e nas crianças que colhem aqui e acolá peças isoladas de uma língua-cultura para darem sentido ao mosaico de sua identidade de herança. Esse esforço não ocorre simplesmente porque será bom, no futuro, ser bilíngue, esse esforço se dá porque essa língua representa uma ligação afetiva e cultural que se expressa no espaço da família e de uma pequena comunidade, quando há.
Nesse contexto, conheci professores que se dedicam a ajudar essas famílias a construírem esse mosaico de uma língua-cultura-identidade de herança. Alguns desses professores trabalham isoladamente e outros participam de escolas comunitárias pelo mundo. Dedico-me a refletir sobre as escolhas curriculares desses professores de língua de herança (LH).
Entre outros aspectos, proponho a esses professores uma reflexão inicial: quais as expectativas de aprendizado que essas famílias mantém em relação às habilidades de fala, escuta, leitura e escrita para seus filhos? Essas expectativas estão relacionadas a quais contextos de usos sociais?
Por exemplo, se a preocupação das famílias é unicamente manter os laços com os parentes distantes, as habilidades de ler e escrever podem ser direcionadas a contextos informais como bilhetes, cartas e e-mails que utilizam um registro mais próximo da oralidade. No entanto, se houver o desejo de preparar os aprendizes para atuarem como bilíngues profissionalmente no futuro, haverá a necessidade de explorar diferentes registros linguísticos e habilidades, como por exemplo falar em público utilizando um registro formal e escrever textos de acordo com a gramática normativa. Cabe aos professores, às escolas comunitárias e às famílias discutirem e acordarem sobre o caminho para que os aprendizes colham suas peças e construam seu mosaico ao longo de sua vida.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Multiculturalismo como princípio curricular


Sonia Nieto (Nieto, 2002) observou que, nos Estados Unidos, os estudantes bilíngues oriundos de minorias geralmente vivem um conflito ideológico, pois há uma mentalidade predominante de exclusão na construção de identidades.
Essas crianças e jovens são implicitamente impelidos a escolher pertencer a uma minoria, ou ser americano: ou um ou outro”. A ideologia dessa mentalidade é a assimilação, pois para pertencer à identidade americana, as crianças e jovens abandonam a cultura, a identidade e a língua de suas famílias. Muitas vezes, esse processo é gradativo e se inicia com a entrada da criança na escola.
            Por que crianças e jovens bilíngues oriundos de minorias não podem pertencer a múltiplas culturas? Por que eles não podem assumir uma identidade híbrida? Essas questões são levantadas por professores e estudiosos que entendem identidade e cultura como pertencimentos múltiplos e mutáveis. É fundamental que professores, coordenadores, comunidade e sociedade compreendam que as crianças e jovens de famílias minoritárias participam simultaneamente de duas ou mais culturas.
De forma a combater a ideologia de assimilação, Nieto defende que uma educação multicultural seja um princípio curricular para todos os estudantes e não apenas para aqueles oriundos de minorias. Esse princípio rejeita todas as formas de discriminação nas escolas e na sociedade e está baseado na afirmaçpio curricularuralismofases, desde o estabelecimento de princão da pluralidade pelos professores, pelos estudantes, pelas comunidades e pela sociedade. Para representar uma sociedade diversa, o  conceito de multiculturalismo deve permear a elaboração do currículo em todas as duas fases, desde o estabelecimento de princípios norteadores até a seleção de conteúdos e métodos.
As escolas comunitárias e os professores de língua de herança também devem sustentar seus currículos numa educação multicultural. Consequentemente, é preciso que o professor, o coordenador e o administrador combatam o discurso da assimilação não impondo os limites de suas próprias identidades, mas afirmando um pertencimento plural.
Referência:
Nieto, S. (2002). Language, culture, and teaching: Critical perspectives for a new century. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Association.

domingo, 5 de maio de 2013

Vamos combater os mitos sobre o bilinguismo infantil?


O bilinguismo é um fenômeno complexo e muitas vezes não nos damos conta de que é muito comum e está presente na maioria dos países do mundo, percorrendo todas as idades e todos os grupos sociais. Atualmente, estima-se que metade da população mundial seja bilíngue.
É comum que famílias brasileiras que emigraram convivam com dúvidas sobre como criar seus filhos bilíngues. Primeiramente, é preciso entender que a manutenção da língua portuguesa no ambiente familiar é uma escolha e responsabilidade dos pais: a família deve conversar sobre o assunto e tomar uma decisão. Também é importante conhecer os mitos sobre o bilinguismo infantil e os argumentos para combatê-los. Dessa forma é possível proteger a família de conselhos que ignoram os dados das pesquisas científicas das últimas décadas. Vejamos alguns mitos e como combatê-los:
  • ·      Ser bilíngue é ter igual fluência em duas ou mais línguas.

É raro encontrar uma pessoa que tenha igual fluência em duas ou mais línguas que conheça e utilize. O conhecimento de uma língua está ligado à história de vida das pessoas. Outro aspecto a ser considerado é que, geralmente, desenvolvemos habilidades em domínios linguísticos diferentes em cada língua que conhecemos, um exemplo é o bilinguismo do típico falante de herança. Geralmente essa pessoa tem conhecimento do vocabulário de uso cotidiano nas circunstâncias familiares, mas encontra dificuldade para utilizar a língua numa circunstância formal ou para discutir um assunto específico.
·      Pessoas bilíngues falam sem sotaque.
É muito mais comum encontrar pessoas bilíngues que têm sotaque. Importante entender que ter ou não um sotaque não determina a habilidade linguística de uma pessoa.
  • ·      Verdadeiros bilíngues adquiriram duas ou mais línguas na infância.

As crianças podem ser educadas para serem bilíngues, no entanto, se elas não utilizam as línguas a que foram expostas podem passar pelo processo de esquecimento e de perda linguística.  Outra questão é que não é preciso aprender uma língua desde criança para adquirir conhecimentos suficientes para utilizá-la cotidianamente. Os adultos e adolescentes também adquirem competência para se comunicarem em uma segunda língua. O aprendizado de uma língua depende de vários fatores como tempo de exposição cotidiana, tipo de exposição, motivação e necessidade de uso.
  • ·      Uma criança deve ser exposta, no máximo, a duas línguas.

Não há limite do número de línguas a que uma criança pode ser exposta. O importante é avaliar a quantidade e a qualidade da exposição para a manutenção e o desenvolvimento das línguas escolhidas.
·      Expor crianças a uma língua de herança terá um efeito negativo na aquisição da língua utilizada na escola. Ou, expor a criança a duas ou mais línguas desde o nascimento causará algum atraso em seu desenvolvimento.
Embora alguns pais relatem a impressão de que seus filhos, inicialmente, vivem algum tipo de atraso no desenvolvimento da linguagem, as pesquisas científicas dizem que não há relação de atraso no desenvolvimento linguístico devido ao fato de uma criança ser bilíngue. Pelo contrário, as indicações atuais são de que as crianças bilíngues, com o passar do tempo, têm maior facilidade ao manejar habilidades metalinguísticas.
  • ·      Crianças criadas na mesma família desenvolverão um mesmo nível de proficiência como falantes de herança.

Não se deve esperar que os filhos tenham as mesmas habilidades linguísticas. Cada um desenvolverá um percurso próprio de aprendizado.
Lembremos que a manutenção e o desenvolvimento da língua de herança estão relacionados ao valor que a família e a comunidade dão para essa língua. Os fatores determinantes são a necessidade de uso e o tempo e a qualidade de exposição a que o falante tem acesso. É a necessidade de interação com as pessoas no cotidiano (falar, brincar, cantar, ouvir, ler, contar, etc.) que determinará a manutenção de uma língua.

Texto publicado no Gazeta Brazilian News e no SALA